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“4 3 2 1”: no ar, o novo CD de Giana Viscardi
Depois de se revelar no elogiado álbum “Tinge”, gravado em Boston (EUA) em 2001, a cantora e compositora paulistana Giana Viscardi lança 4 3 2 1, seu segundo disco independente.
Inspirado na mais rica tradição da MPB, o trabalho é recheado de influências jazzísticas e mostra canções essencialmente acústicas. Com exceção de “Vem Morena”, clássico de Luiz Gonzaga, todas as faixas são assinadas por ela. Além de “Deslumbrada Lua”, que Giana compôs com o cantor e compositor Chico César, o repertório inclui oito canções em parceria com o violonista austríaco Michael Ruzitschka, produtor musical do trabalho.
Entre as participações especiais estão a da cantora Céu, do percussionista Armando Marçal e do violinista Ricardo Herz (finalista do Prêmio Visa 2004 na categoria Instrumental). As fotos e o design do encarte são do designer Rafic Farah. Em julho deste ano o CD ganhará uma nova versão e será lançado no Japão com três faixas novas: a inédita “Sabores” de Giana e Michael, uma versão em espanhol remixada de “Colorida” e um remix eletrônico da canção que dá nome ao disco, “4 3 2 1”.
O CD, faixa por faixa
por Carlos Calado
Veja a seguir mais informações sobre todas as faixas do CD comentadas por Giana e Michael Ruzitschka.
“4321” (Giana e Michael)
Apresentando uma fusão de samba e ritmos cubanos, essa canção remete ao sambalanço, estilo que o pianista João Donato desenvolveu na década de 60, quando morava nos Estados Unidos. “Descobrimos um disco do João gravado em Cuba, com cantoras cubanas, e nos apaixonamos. Depois vimos um show dele aqui em São Paulo e chegamos em casa com esse samba meio cha-cha-cha na cabeça”, recorda Giana. A participação do percussionista Armando Marçal, nas congas, empresta ao ritmo um novo tempero. “Para mim, Marçal é o símbolo dessa fusão. Mesmo num ritmo de cha-cha-cha, ele toca com sotaque brasileiro”, comenta Michael.
“Metades” (Giana e Michael)
Inspirada na música pop africana, essa faixa combina compasso 12/8 (um ritmo tipicamente africano) com uma letra quase concreta. “Nós gostamos bastante do Richard Bona, baixista e cantor de Camarões, e também de um pessoal de Mali”, explica Giana. Mas a harmonia que se ouve é um pouco mais rebuscada. “Por mais de que eu goste de muitas músicas do gênero pop, sinto falta de uma certa sofisticação”, afirma Michael.
“Me Leva” (Giana e Michael)
No início, a envolvente levada de samba, a sonoridade do piano elétrico de Fábio Torres e, especialmente, o violão de Michael trazem um quê de algumas gravações de Gilberto Gil do início dos anos 70. “A gente ama o álbum ‘Refavela’, do Gil. ‘Me Leva’ é um samba bem moderno, de celebração”, diz Giana, confirmando sua fonte de inspiração. Mas não se pense que ela e Michael pretendem reproduzir o estilo do compositor baiano. Basta ouvir a canção para perceber como a performance dos músicos logo evolui por outros caminhos. “Os garotos da nossa banda têm vinte e poucos anos. Além de samba eles têm outras referências, inclusive eletrônicas, que contribuem para a sonoridade moderna dessa música”, analisa Michael.
“Nome do Homem” (Giana)
Outra faixa que revela o interesse de Giana e Michael por novas fusões rítmicas. “Quando compus essa música, na Áustria, eu estava pensando em como as pessoas são o seu nome. Depois alguém me disse que essa música tinha a ver com alguns poemas de Fernando Pessoa. Então fui ler ‘O Livro do Desassossego’ e decidi que a música deveria ser uma espécie de um fado. Ficou um xote-fado ou um fado-xote”, diverte-se Giana. Mas quem prestar mais atenção também pode sentir uma possível levada de fox-trot. “Se você trocar o violão por uma guitarra de jazz antiga, pode mesmo chegar num fox dos anos 20. Os estilos musicais todos são parentes, de certa forma”, admite Michael.
“Gota a gota” (Giana e Michael)
Balada romântica, que serve de veículo para a bela voz de Giana, numa interpretação sensível e segura. “Gota a gota / Dia a dia / Grão em grão / De sol em sol / Somos um e somos nós”, diz o bem-sacado refrão escrito por ela. Nessa canção, Giana exercita um antigo prazer musical. “Eu me divirto muito com a divisão da melodia. Desde criança eu já gostava de dividir, de distribuir a melodia dentro da harmonia. Eu apreciava isso antes mesmo de ter consciência”.
“Amar É Maré” (Giana e Michael)
O batuque dos atabaques, o ritmo de ascendência africana e as referências ao mar, na letra, remetem diretamente à dançante tradição musical da Bahia. “É um ijexá que fala do amor e de Iemanjá”, resume Giana, que interpreta essa canção com a leveza que ela exige. “Hoje em dia se fala de Recife como o grande núcleo fornecedor de música contemporânea. Como eu tenho essa formação de bossa nova e João Gilberto, eu ainda estou na Bahia”, brinca a cantora.
“Vem Morena” (Luiz Gonzaga e Zé Dantas)
Um clássico do “rei do baião”, que surge em uma versão contagiante, em ritmo de chula baiana. “A gente tocou bastante essa música na Europa e ela sempre trouxe muita energia, é muito vibrante. Ela também tem a ver com as minha pesquisa na obra do Luiz Gonzaga e do Jackson do Pandeiro”, comenta Giana. O violino de Ricardo Herz empresta um sabor mais nordestino ao arranjo de essência jazzística.
“Colorida” (Giana)
Composta por Giana nos Estados Unidos, em 2001, essa delicada canção é a mais antiga das 12 incluídas no álbum. “Eu a fiz em homenagem a Marta Gómez, uma cantora colombiana maravilhosa, nossa colega na Berklee, que hoje mora em Nova York. Em Boston, ela ganhava a vida cantando na rua. E era capaz de silenciar a rua quando cantava, tudo parecia entrar em sintonia com a música dela”.
“Gata Lúcida” (Giana e Michael)
Um samba rápido e “joãobosquiano” (na definição da própria compositora), que traz como personagem uma garota ágil, malandra e tipicamente paulistana. “Detesto essas duas pedras que foram jogadas sobre os paulistas: ‘túmulo do samba’ e ‘a deselegância discreta de suas meninas’. Essa história de que paulista não sabe sambar é uma lenda. Espero um dia poder figurar no cenário brasileiro trazendo a voz das paulistas que têm suíngue”, diz a compositora, sem esconder sua indignação. Fazendo jus ao que diz, Giana interpreta esse samba com o devido jogo de cintura.
“Fera Bela” (Giana e Michael)
Agora um samba mais gingado, com letra ácida (“Bate a porta com força / E nem se importa / Pedra, palavra, fura / É dura, dura, dura”). “Esta é uma música muito forte para mim. Ela tem um quê de agressiva, uma fera que diz coisas, fere as pessoas e depois se arrepende. Sempre que eu canto essa música, a fera vem. É um exu que diz coisas”, entrega a intérprete e compositora.
“Toda Tua” (Giana e Michael)
Uma balada jazzística suave, realçada por uma interpretação emotiva de Giana. Destaque para o solo de piano do alemão Christian Gall. “No palco você tem mais abertura para os improvisos, mas no disco achamos melhor restringir um pouco os solos. Como o Christian é um super músico de jazz, demos só alguns compassos e ele arrebentou”, comenta a compositora. O arranjo de Michael se vale de um apropriado naipe de cordas. “É muito convidativo usar cordas em uma balada. Optei por um arranjo sutil, só para dar uma cor. Não gosto de muitas camadas. Prefiro a sensação de espaço na música”.
“Deslumbrada Lua” (Giana e Chico César)
Essa delicada parceria de Giana com Chico César nasceu, segundo ela, por acaso, depois de uma conversa que tiveram a respeito de Luiz Gonzaga (também conhecido pelo apelido de “Lua”). “Eu fiquei deslumbrada com uma história que o Chico me contou. Dias depois escrevi um poeminha bem singelo e mandei por e-mail para ele, explicando a sensação que tive naquela conversa. Logo depois ele musicou o poema. Fiquei surpresa. O Chico é muito generoso”, comenta Giana. Michael também chama atenção para a presença de Chico no disco, tocando violão e participando dos vocais. “Ele é supercriativo e trouxe um lado inesperado para essa música”, diz o arranjador, referindo-se ao interlúdio que o cantor e compositor inventou no estúdio.
LAURO LISBOA, Estado de São Paulo, 2006
“Em 4321, Giana dá banho se suíngue, com capacidade de improviso jazzístico, toques daquela graça jovial que provoca sorrisos de satisfação no ouvinte, dominando a divisão do samba como poucas em sua geração.“
LUIZ TATIT
“Entre tantas boas vozes melódicas que aparecem com freqüência em todo o Brasil, um destaque especial para a voz rítmica de Giana Viscardi. Seu disco, 4321, traz 11 canções inéditas de sua autoria, todas com muita ginga e sinuosidade rítmicas, e uma interpretação magistral do baião “Vem Morena”, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas. Melodias bem sintonizadas com as letras, arranjos refinados e visual extremamente cuidado, temos aí uma contribuição de ponta para o universo já tão rico de nossa música.”
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