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27/07/08 - Brasil Clippings

INTERNACIONAL, NO TOM DO BRASIL

A cantora e compositora Giana Viscardi desponta como uma das principais revelações do atual cenário musical
Fabiana Caso - O Estado de S.Paulo, 27 de julho de 2008.

Giana Viscardi, Suplemento Feminino 27-Jul-08- Depois de um lance de escadas no prédio de poucos andares, a voz entre grave e aguda fala lá de cima: “é aqui!” A cantora e compositora Giana Viscardi está na porta com o sorriso aberto, deixando aparecer covinhas nas bochechas. Aos 32 anos, esta paulistana seguiu o caminho da música e ainda é mais conhecida no exterior do que na terra natal - equação que parece estar mudando. Já gravou dois discos, ambos independentes, e sua voz tem encantado artistas como Tom Zé, Chico César e um sem número de espectadores.

Com desenvoltura, Giana improvisa e reforça os fonemas no canto de qualidade rítmica, aos sabores do samba e outros ritmos brasileiros temperados pelo jazz. A faceta compositora também tem sido requisitada: cantoras de sua geração como Mariana Aydar, Ana Paula Lopes e Bruna Caran já gravaram suas canções. Hoje Giana lida com uma série de encomendas: compor tornou-se também um ofício. “Já me pedem: ?oh Giana, me faz um samba!?”, conta ela.

Precoce, aos 6 anos surpreendeu a família quando cantou a letra inteirinha de Rosa Morena, de Dorival Caymmi. “Todas as minhas brincadeiras de infância giravam em torno de produções de peças de teatro e espetáculos.”A partir de então, passou a ser requisitada em todas as festinhas familiares para exibir os dotes vocais. Na adolescência, cantou em barzinhos pela capital paulista. “Sempre fui rueira.” Apesar de ser a filha do meio, era a menina mais velha, e teve que abrir fronteiras com o pai, um médico. Participava de todos os festivais dos colégios. “Fiz parte de uma vanguarda artística do Colégio Bandeirantes. Fomos os primeiros a montar peças, shows.”

Apesar da inclinação para a arte, aos 18 anos optou por estudar Arquitetura. Por dois anos, se dividiu entre as aulas e as bandas em que tocava música brasileira, até forró. Um dos marcos na definição de seu caminho foi ter cantado com Tom Zé em um festival, presidido por ele.

Quando um amigo a levou para a escola musical Groove, viu o encantamento de uma turma de alunos diante de um vídeo do guitarrista de jazz Wes Montgomery. “Foi aí que decidi que era isso que queria. No dia seguinte, ao invés de ir para a faculdade, fui para a escola de música”, lembra. Apreensiva, foi comunicar ao pai sua decisão de ser cantora. “Ele só riu e falou que sabia que isso aconteceria.” Mudou-se para os Estados Unidos para estudar Canto e Percussão na Berkelee College of Music, em Boston. “Aprendi que a melhor forma de improvisar é compor”, conta ela, que também costuma tocar percussão nos shows.

ALMA BRASILEIRA

Nem bem chegou ao Brasil e alguns professores já a convidaram para participar de um grupo de bossa nova. Com eles, Giana cantou em diversas turnês no continente norte-americano. Ouvia falar sobre um aluno estrangeiro que só tirava notas altas e que sabia tudo sobre música brasileira. Finalmente conheceu o violonista austríaco Michael Ruzitschka, que já em Viena estudava música brasileira. Ambos impressionaram-se: ele com a voz e a presença de palco de Giana, e ela com os conhecimentos e a técnica de Michael para a música brasileira.

Juntos, fizeram muitos shows, tanto nos Estados Unidos como na Europa. Por dois anos, mantiveram-se apenas amigos e parceiros, até que Michael abriu os olhos dela sobre o sentimento que acontecia entre eles. Tornaram-se parceiros também no amor. Moraram um ano juntos nos Estados Unidos e mudaram-se para o Brasil em 2001. Até cogitaram ficar em Nova York, mas a saudade apertou.”Foi aqui que nosso trabalho desabrochou”, constata Giana. No mesmo ano em que voltou à terra natal, ela cantou no prestigiado Festival de jazz de Montreux, na Suíça.

O interessante é que Giana foi estudar improviso nos Estados Unidos e voltou ainda mais sambista ao Brasil. Diferentemente de outras cantoras da nova geração que apostam na mescla da música brasileira com beats eletrônicos, em uma roupagem supostamente moderna, ela assume a identidade verde e amarela. “Não me dobro a modismos. Acho que para ser universal é preciso falar do seu quintal”, brada ela, que também não tem nada contra instrumentos eletrônicos e fez até remixes do álbum 4 3 2 1.

Amiga de muitas das cantoras da nova geração, enxerga algum elo musical entre elas? “É uma geração que bebeu na raiz dos ritmos brasileiros. Nos anos 80, as bandas iam mais para o rock. Já a gente dançou forró pé de serra, eu fiz muita roda de samba no bar Ó do Borogodó”, comenta. A amiga e cantora Mariana Aydar gravou uma composição do casal, Na Gangorra, e já tem outra em mãos para seu próximo disco. “Giana me mandou uma senhora música! Tem swing, muita qualidade e é contemporânea. É uma das grandes compositoras da nossa geração. Cada vez mais malandra e com personalidade nas composições. O que me encanta mais nela, como cantora e pessoa, é a sua garra e alegria”, elogia Mariana.

Michael é um aliado na explosão dos talentos musicais de Giana, e seu principal parceiro nas composições. “Somos como o João Bosco e o Aldir Blanc”, define ela. Entre os mentores, lembra de Elis Regina, o poeta Fernando Pessoa, Caetano Veloso, Tom Zé e até Oscar Niemeyer. “Ele pensa a arquitetura de uma forma coletiva, torna a cidade mais generosa, boa para o cidadão.” Mas quem dá uma força para seu trabalho é o compositor e cantor Chico César. Os dois continuam tocando em casas de jazz na Europa e participam de alguns festivais de verão.

Giana se autodefine uma pessoa agregadora, criativa, extrovertida, palhaça com os íntimos. “Posso ser um um pouco exagerada, impositiva e até um pouco espaçosa”, pondera.

“Giana é muito espontânea e sempre quer ter as pessoas queridas por perto. Ao mesmo tempo, trabalha muito para fazer as coisas acontecerem”, fala o companheiro Michael. Apesar disso, continua “rueira”. “Saímos quase todas as noites. Vamos muito a shows, cinema e bares”, fala. “São Paulo é um monstro adorável. Ao mesmo tempo que dá medo, oferece tanto em cultura… Somos tragados pela cidade.” O contraponto é um lado introspectivo, que valoriza o silêncio em casa, de onde vêm as inspirações para as composições. Fora o canto, a moça gosta mesmo é de nadar. “Adoro a água e, além de nadar em mar aberto, fico horas em cachoeiras.”

A bela voz exige alguns cuidados básicos. Bebe muita água, não come depois das 22 horas para não ter nenhum refluxo, dorme a quantidade certa de horas e come mais vegetais. Mas isso não a impede de tomar vinho ou umas “cachacinhas” no bar. Uma de suas idiossincrasias é falar ao pé do ouvido para não desgastar a voz.

Além dos shows na Europa e no Brasil, o grande plano para o segundo semestre é a gravação de seu terceiro disco. O repertório já está pronto, sendo testado nos shows. Em suma, são canções de Giana e Michael, e em parceria com Chico César. “Acho que esse disco vai ter uma sonoridade mais suave”, adianta Giana.



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